Se eu pudesse te dizer o quanto eu sinto…


Sinto muito por você ter nascido nessa época profundamente patriarcal
(será que você pôde escolher o seu marido?)

Por ter tido seus filhos ainda tão jovem
(será que você pôde cogitar a hipótese de não ser mãe?)

Por até hoje não poder nem escolher o que comprar no supermercado
(quais são suas vontades?)

Pelo silenciamento constante
(o que você diria se pudesse falar?)

Pelas dores físicas e mentais
(as feridas ainda estão abertas?)

Pela falta de liberdade, de vontade própria, de desejos
(qual era o seu verdadeiro sonho?)

Por ter se esvaziado a ponto de caber na forma que estava pronta
antes mesmo de você nascer
(como fez para não morrer sufocada?)

Por ter vivido a vida de outra pessoa
(quem é essa que construíram em seu lugar?).

 

Sinto tanto por você, minha querida,
e sinto muito mais por não poder te alcançar.

Você caiu em um poço tão profundo de esquecimento
que eu não consigo agarrar a sua mão.

Seus braços continuam estendidos ao céu,
mas há tempos não se ouve o som das suas súplicas.

Meu coração sangra ao te contemplar!

Você é tão docemente linda
e seus lindos olhos verdes brilham sob o sol;

Mas por trás do seu sorriso eu vejo dor,
eu enxergo seu sofrimento estampado,
como marcas de ferro quente na alma.

Destruíram você, sua mãe, sua avó
e tantas outras que já passaram por aqui,
as quais deixaram a história manchada com sangue e suor.

Mas eu te digo, minha linda,
não será tarde demais!

Em seu nome, e em nome de tantas outras,
escolheremos o que antes não era uma opção,
gritaremos todas as palavras que te sufocaram,
curaremos as dores dos ferimentos,
sonharemos com o que antes eram utopias,
transbordaremos de amor próprio!

E, saradas, viveremos o que você devia ter vivido também.